
Senso Comum - Dra. Carmem Bruder
22/06/2009
O que é do senso comum é da ordem daquele saber que todos sabem e com o qual concordam. Como tal, até mesmo pelo comum que carrega no nome, não é merecedor de grande destaque, vez que costumamos nos ater justamente às diferenças e, estas sim, estão na moda.
Foi sobre essa reflexão que Barack Obama, presidente do EUA, centrou seu discurso durante visita à Universidade de Notre Dame, a mais importante universidade católica americana. Para receber a homenagem de honra ao mérito concedida por uma turma de formandos, a visita do presidente causou polêmica entre os católicos, devido às posições presidenciais em defesa do aborto e das pesquisas com células-tronco.
Então ele disse: “Quando abrimos corações e mentes para aqueles que podem não pensar como nós e podem não crer naquilo que nós acreditamos, é nessa hora que descobrimos a mínima possibilidade de um senso comum”.
Sábias palavras, que partem do respeito às diferenças, mas vão em busca da possibilidade de encontrar um caminho que possa ser percorrido por todos com um mínimo de satisfação necessária. O tal senso comum, este, que parece tão chinfrim, mas que carrega a chave da paz, usando como instrumentos a tolerância, a escuta e o acordo possível.
Atentemo-nos, com essa ótica, para as palavras seguintes do presidente: “Talvez não concordemos sobre o aborto, mas ainda podemos concordar que é uma decisão de apertar o coração da mulher tanto na dimensão moral quanto na espiritual. Então, trabalhemos juntos para reduzir o número de mulheres que procuram o aborto...”.
Como discordar do fato, mesmo não concordando com os métodos, quem poderia dizer diferente, quem poderia desejar às mulheres que elas tivessem ou fizessem abortos? Além do que, nessa forma de colocar as coisas, fica evidente que a idéia por trás das diferenças é a mesma; tanto os pros, quanto os contras, buscam um mesmo fim, o não aborto. Este sim é o que realmente importa, é, como disse Obama, onde está o senso comum.
E o que teria isso com as nossas vidas, com o nosso dia a dia: dos homens, das mulheres, dos casais, dos pais, dos filhos, dos amigos, dos colegas? Tem que, invariavelmente, as discussões, as dificuldades de relacionamento, os tropeços no educar, as inimizades, os rancores, começam com a descoberta de uma diferença na forma de pensar ou de sentir elevada a um ponto de honra, aquele que a pessoa sustenta como imprescindível e seu; continuam pela luta selvagem de mostrar ao outro quem está certo, novamente, pondo todo o enfoque sobre as diferenças (insuperáveis diferenças, dizemos muitas vezes) e terminam na total impossibilidade de se encontrar o senso comum, aquele que resolveria os problemas de todos.
Será que o que os homens querem é tão diferente assim do que o que as mulheres querem? E o desejo dos pais para seus filhos, será que eles não querem ser sadios, educados, bem sucedidos? O que dizer de professores e alunos (que mais parecem exércitos inimigos nos dias de hoje)? Por que então, nas relações amorosas as divergências aparecem de forma aguda, se o objetivo daqueles que se relacionam é, pelo menos em casos normais, fazer dar certo? Porque na busca de operacionalizar o desejo entra-se por vias tortas, pegando o atalho sinuoso e labiríntico de acentuar as diferenças ao invés de se agarrar às semelhanças, abandonando-se em algum lugar à beira do caminho aquele que deveria ser o fim comum das relações, viver bem!
Para que as pessoas possam ter opiniões próprias, serem corajosamente autênticas, agirem com justiça, ajudarem aos outros, à humanidade e a si mesmas é necessário que iluminem com holofotes os pontos de concordância e que reservem uma simples lamparina para os pontos de divergência. Esta ação deve ficar a cargo do infalível bom senso, velho pai do senso comum.
Carmen Bruder é médica e psicanalista
- Compartilhe
Delicious
google bookmarks
Windows Live
Reddit
Digg
Yahoo my web
stumbleupon




Parceiros







